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divinos brasis que vivi e vi............foto: rui faquini

terça-feira, 12 de abril de 2005

Entrevista na Revista Host - 2005

Revista Host


Turista na sua cidade
Roteiro de tradições

Patrimônio Histórico Nacional, a goiana Pirenópolis encanta turistas e conquista moradores, como o presidente da Agência Goiana de Turismo, Marcelo Safadi
Michel GorskiCasario de arquitetura colonial, igrejas centenárias, festas religiosas a colorir as ruas, nos arredores, rios e cachoeiras de águas cristalinas. O cenário delicado da antiga Nossa Senhora dos Rosários de Meia Ponte resistiu com maestria à passagem do tempo. Sorte dos 26 mil habitantes que vivem na atual Pirenópolis e podem conviver com o passado histórico de sua cidade. Sorte de Goiás, que tem na cidade surgida de um arraial fundado em 1727 um destino turístico reconhecido, desde 1988, como Patrimônio Histórico Nacional. E bons momentos pode desfrutar o visitante não só caminhando por suas ruas recobertas de pedras goiás, como também se deliciando com a gastronomia caprichada, desfrutando do conforto de boas pousadas e admirando trabalhos de design e artesanato diferenciados. Pois Pirenópolis soube preservar o seu espaço e suas tradições, acrescentando com cuidado pitadas de requinte na arte de receber.

Por causa dessa opção a cidade goiana, distante 130 quilômetros de Goiânia e 150 de Brasília, às margens do Rio das Almas, recebeu um número significativo de novos moradores, que se juntaram aos nativos na defesa do espaço construído e ambiental. Já as ondas de visitantes não param de chegar, principalmente por conta dos festejos da Cavalhada, uma tradição associada à Festa do Divino Espírito Santo, que acontece 40 dias após a Páscoa.

Presidente da Agetur, Agência Goiana de Turismo, o arquiteto Marcelo Safadi converteu-se em pirenopolino. Nascido em Brasília, percorreu um longo caminho até adotar como base a pequena cidade colonial junto à Serra dos Pirineus, no interior de Goiás. Ele é enfático: “Sou de Pirenópolis, minha casa é em Pirenópolis”. Depois de muitas visitas de trabalho e pesquisas na região, Safadi escolheu a cidade para morar, onde ainda pretende montar um ateliê de design e artesanato brasileiro. O que não é fácil é ter sua casa na cidade, ser executivo em Goiânia e viajar para todo o Brasil, principalmente em função de seus compromissos como presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo.

“Chegou a hora de discutir todos os assuntos associados ao turismo, inclusive as posturas ambientalistas e a sustentabilidade. O turismo é o amálgama de todos os setores”, enfatiza Safadi com a tranqüilidade de quem se aprimorou no conhecimento de unidades de conservação nos EUA e foi subsecretário do Meio Ambiente do governo de Goiás, antes de presidir a Agetur.

No seu entender, o grande desafio em Goiás é atrair para um turismo diferenciado, valorizando as características de cada região, com o máximo de envolvimento da população local. Parece um objetivo simples, quase óbvio, mas Safadi explica: “Nas cidades com base mineradora, como foram Pirenópolis e Vila Boa de Goiás (Goiás Velho), é possível manter em cerca de 50% as oportunidades para o pessoal da terra; eles se adaptam melhor às mudanças e garantem o que poderíamos chamar de direito original”. Outra característica positiva das cidades goianas é a tranqüilidade. “Em Goiás você pode ser anônimo, entender a cidade, caminhar sem o assédio dos ambulantes, como em outras regiões do país”, completa.

Depois de muitos anos em Pirenópolis, Safadi sai às ruas como um turista, encantando-se com o local. E lembra que a cidade ainda está traumatizada com a destruição quase total da Matriz Nossa Senhora do Rosário, paróquia mais antiga de Goiás, símbolo do apogeu do ciclo do ouro na região. Um incêndio durante a noite, em 2002, deixou praticamente só as paredes externas da construção, tombada em 1941 e que havia sido restaurada em 1999. Hoje o que se discute é como refazê-la, pois não há meios de restaurá-la. A cidade apareceu no noticiário nacional chorando a perda de seu maior patrimônio construído.

Do ponto de vista turístico, Pirenópolis também tem atraído visitantes de alto poder aquisitivo de Brasília e Goiânia, gerando uma demanda qualitativa de serviços e uma valorização das casas e terrenos nas áreas mais centrais. “A cidade pode escolher o seu cliente”, diz o presidente da Agetur, que acredita ser o turista de maior permanência o ideal para a cidade. Aquele que perambula com calma e deixa o carro estacionado numa das 90 pousadas, que oferecem de 4 a 150 apartamentos. “O que estamos fazendo é ensinar à comunidade como ela pode transformar esse patrimônio histórico e cultural em ativo econômico, atraindo turistas.”

No ano passado, um festival gastronômico agitou Pirenópolis. Durante dez dias, um verdadeiro banquete, capitaneado pelos chefs Mara Salles e Eduardo Duó, apresentou pratos preparados com ingredientes da região. Ainda durante o período foram feitas “intervenções” em 16 restaurantes e bares locais, para o aprimoramento desses estabelecimentos. No repertório goiano é o que se chama de “traição”. O presidente da Agetur explica: “Este é o termo que expressa a forma de o goiano ajudar alguém que está meio ruim das pernas, desanimado, para baixo. Um grupo de amigos vai até a casa da pessoa para dar um trato em tudo; eles arrumam, lavam e passam a roupa, cozinham e vão embora. Foi isso o que fizemos com os restaurantes e bares da cidade”.



Tradição, licor de baru e design
Marcelo Safadi faz um roteiro destacando o que um turista deve descobrir em Pirenópolis para curti-la ao máximo, em muitas viagens:

Excelência em design 
– Visitar os principais ateliês de design e artesanato é obrigatório e se complementa com a feira de domingo. São imperdíveis os móveis de Mauricio Azeredo; o trabalho em tear da Mercedes; a originalidade dos tecidos trabalhados pela Cláudia Azeredo; as cerâmicas com materiais 100% locais de Cristina e Galeão.

Personagens de Pirenópolis 
– Conhecer e conversar com pirenopolinos, legítimos ou não, faz o visitante entrar no clima da cidade. Alguns dos mais conhecidos são a Safia, que faz personagens de barro; o Ico, contador de histórias; e o Pompeu, que carrega o passado da cidade na mão.

Festa do Divino e Cavalhada 
– “Só conheci a Cavalhada autêntica depois de morar lá”, afirma Safadi. A festa toda dura um mês, dentro da preparação para as celebrações da Festa do Divino. A Cavalhada é o momento pagão dentro da festa e recria a batalha entre mouros e cristãos com seus participantes trajados a caráter e montando cavalos. Antes dos combates, surgem nas ruas da cidade grupos de cavaleiros chamados Mascarados, com as cabeças cobertas por lindas máscaras de artesanato popular, representando demônios, gorilas, cabeças de vacas e de bois.

Interesses históricos e ecológicos 
– Pirenópolis tem antigas fazendas, resquícios da Estrada Real, calçada com pedras, além de rios e cachoeiras. Destacam-se a Serra dos Pirineus, pela sua imponência; o Santuário Vagafogo, por ser uma reserva particular de preservação do cerrado, a 6 quilômetros da cidade, com várias atrações naturais; e a Fazenda Babilônia, com uma casa de engenho construída por escravos no final do século XVIII.

Comidas pirenopolinas 
– Há muito a oferecer em termos gastronômicos, mas alguns restaurantes são curiosos e tradicionais, como o Padre Rosa, com 40 itens à mesa; As flor, com 30 tipos de comida; Pedreiras, com fogão de lenha na subida da serra, a caminho das pedreiras; Boteco da Passagem Funda, ao lado da praia do Rio das Almas. Quando se senta à mesa não podem faltar pratos com pequi e variações do empadão goiano.

Projeto baru 
– O baru é uma castanha do cerrado, que virou estrela quando há cinco anos se descobriu que poderia ser torrada e consumida como aperitivo, depois nasceu o licor, do tipo “amarula”, e ambos se tornaram os principais souvenires da cidade, deixando para segundo plano o pequi e o doce de cajuzinho do cerrado. “Whisky com baru, não há coisa melhor”, diz Safadi.

A pedra Goiás é de Pirenópolis 
– Na própria cidade, mas também pelo Brasil afora, se pisa muito sobre essa pedra extraída nos seus arredores. Visitar as pedreiras é curioso e o sistema de trabalho é o tradicional.

Banhos de rios e cachoeiras 
– “Os rios acima da cidade são ótimos, abaixo são péssimos. O projeto da coleta do esgoto ainda não foi implantado”, lamenta Marcelo, que destaca o antigo Caldeirão do Inferno (Santa Maria), uma cachoeira branca que despenca num poço azul. Nas margens, uma praia que fica metade à sombra e metade ao sol.

Créditos das imagens:
Rui Faquini

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